O CONCEITO DA MOBILIDADE URBANA
Há muito tempo as estratégias de planejamento urbano para atender o crescimento das cidades são tratadas de maneira equivocada. Os técnicos em transportes preocupam-se principalmente em elaborar projetos voltados para o transporte coletivo. Na tentativa de proporcionar cada vez mais oferta, são trazidas novidades alternativas como o VLP - veículo leve sobre pneus, como por exemplo, o Expresso Tiradentes - e mais recentemente o Monotrilho - sistema de transporte suspenso em via elevada - esperando atender a crescente necessidade de transporte de massa. A intenção é fazer com que o crescimento da população seja atendido com o desenvolvimento dos equipamentos da rede.
Por sua vez, técnicos em trânsito direcionam seus esforços em melhoria da fluidez, e como o crescimento do número de automóveis não é acompanhado pelo crescimento do viário, restringem cada vez mais a circulação de carros, caminhões e ônibus fretados. Como estas medidas não solucionam o problema, investimentos cada vez maiores são feitos em novas obras e adequações viárias como as duplicações de faixa, passagens de nível, viadutos, pontes, túneis, etc. A estratégia de aumentar o viário acaba se transformando num ciclo vicioso e equivocado, onde o aumento da frota sempre supera e satura, e consequentemente favorece o transporte individual em detrimento do coletivo. Essas obras, apesar de resolverem parte do problema, têm resultados momentâneos, e acabam sendo ocupadas por veículos particulares. Adequações viárias são necessárias, mas não podem ser encaradas como solução para o problema de crescimento da frota.
Paralelamente, a cidade cresce desordenadamente, ao arrepio do Estatuto das Cidades e sob a vigência de um Plano Diretor cuja revisão, em trâmite, não pode, de novo, padecer dos equívocos que o tornaram uma peça utópica e distante da realidade consolidada da Cidade.
O planejamento urbano deve levar em conta a infra-estrutura disponível em cada uma das regiões que se pretende adensar sob pena de fazer valer a lógica cruel, que afasta das áreas centrais, a população mais volumosa e de baixa renda. Com isso, o cidadão de menor poder aquisitivo é o que mora no extremo da periferia e necessita de maior deslocamento para atender as suas necessidades como ir ao trabalho, à escola, ao médico, ao dentista, ao lazer etc.
Por outro lado, a concentração de empregos costuma se dar no centro expandido e nas zonas industriais e comerciais nas quais o adensamento já não é mais possível. Em resumo, os empregos estão onde há menos gente morando e a maioria das pessoas vive onde praticamente não há oferta de trabalho. Daí,é preciso criar novos pólos de desenvolvimento econômico de modo a gerar emprego e renda nos círculos mais periféricos.
O conceito de MOBILIDADE URBANA sustenta que as políticas públicas de transporte, trânsito e de uso e ocupação do solo devem ser elaboradas de maneira conjunta e harmoniosa. Dessa forma, parece possível que urbanistas, técnicos em transportes, em trânsito e legisladores, apliquem o conceito na administração pública e na revisão do Plano Diretor Estratégico, de modo a diminuir o número de deslocamentos, que hoje é de 30 milhões por dia, proporcionando ao munícipe o acesso amplo e democrático ao espaço urbano.
Um passo importante nessa direção é a revitalização de diversas áreas na região do centro expandido e a aplicação da lei no que se refere à função social da propriedade, permitindo abrigar unidades residenciais multifamiliares. Outro passo é implantar moradias populares em todas as regiões em torno de novos pólos de desenvolvimento comercial, industrial e de serviços que devem ser incentivados e criados.
Por último, a mobilidade urbana não pode prescindir de uma política que desestimule o uso de veículos particulares e a que qualifique cada vez mais o transporte coletivo o que passa, obviamente, pela ampliação do sistema, pelo conforto e renovação permanente das frotas.

